22 de outubro de 2006

PAX IN DOMINICUS

É domingo e chove.
Na caixa de correio chega-me o que parece ser a versão legítima da "Nota Pastoral do Conselho Permanente Conferência Episcopal Portuguesa sobreo referendo ao aborto".
Aparentemente o novo chefe dos bispos católicos, no seu ar bonacheirão, democrata e familiar até, achou por bem esclarecer as coisas. Que não haja confusões: a coisa é para ficar como está. As mulheres devem continuar a malhar com os ossos na cadeia se tiverem a triste ideia de se enfiarem num vão de escada para serem raspadas e sangradas. O que é bem feito, para não serem todas umas putas, ingratas ainda por cima, que não só tiveram a ousadia de terem o que eles, bispos, não podem ter, sexo, como ainda não querem ficar com todos os filhos que dali saírem. O inferno depois de mortas não será suficiente. É preciso ameaçá-las com o inferno em vida.
Resumindo, o texto diz o seguinte:
"Nós, Bispos Católicos, sentimos perplexidade acerca desta situação. Antes de mais porque acreditamos, como o fez a Igreja desde os primeiros séculos,que a vida humana, com toda a sua dignidade, existe desde o primeiro momento da concepção." Daqui, a reter a frase "desde os primeiros séculos".
"..Para os fiéis católicos o aborto provocado é um pecado grave porque éuma violação do 5º Mandamento da Lei de Deus, ?não matarás?, e é-o mesmoquando legalmente permitido"
"Não podemos, pois, deixar de dizer aos fiéis católicos que devem votar "não" e ajudar a esclarecer outras pessoas sobre a dignidade da vidahumana, desde o seu primeiro momento." Daqui basta fixar "não" e "esclarecer".
"Pensamos particularmente nos jovens, muitos dos quais votam pela primeira vez e para quem a vida é uma paixão e tem de ser uma descoberta." Sobre o empenho dos padres em participar da descoberta da paixão dos jovens, já ouvimos falar o suficiente.
"O aborto não é um direito da mulher. Ninguém tem direito de decidir se um ser humano vive ou não vive, mesmo que seja a mãe que o acolheu no seu ventre. A mulher tem o direito de decidir se concebe ou não." É bonita e romântica esta ideia de acolher no seu ventre. Calculo que no recato das sua cela, quem escreve estas coisas imagine que o homem estenda a mão graciosamente e entregue uma gota de precioso líquido que a mulher deposita sobre o ventre e que no mesmo instante se transforma numa linda criança rosada.
Nem por um momento referem o que fazer com os julgamentos das mulheres ou com o facto de defender o sim neste referendo não ser uma aprovação do acto mas apenas o libertar das consciências de quem se vê em tribunal por ter feito algo que a destruiu um pouco.
Do meu ponto de vista toda a celeuma levantada por estas instituições deriva de duas questões: sexo e mulheres. O sexo se não é para eles não deve ser para ninguém. E as mulheres, já que existem, devem ficar-se no papel de mães. De parideiras acolhedoras.
Tudo isto estaria muito bem se não houvesse um movimento decidido e que irá votar em massa no dia do referendo,pelo Não. Enquanto os bananas do Sim, hão-de estar enfiados em centros comerciais ou em casa a discutir Proust, para depois se lamentarem de que "não percebem como aconteceu".
É domingo e chove no meu país provinciano.

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